A família pediu que Clarinha falasse no funeral da avó Maria. Ela aceitou, mas entrou em pânico. Nunca tinha falado em público, muito menos num momento tão doloroso. Passou a noite em claro pensando no que dizer.
Beto sentou com ela na mesa da cozinha. — Escreve como se fosse uma carta para ela.
Clarinha pegou um caderno. Lembrou dos momentos simples. A avó esperando ela voltar da escola com um copo de leite. A avó ensinando a costurar um botão. A avó rindo alto na cozinha. Anotou tudo.
No dia seguinte, ela leu o texto para o pai e a mãe. Eles aprovaram. O pai sugeriu cortar uma parte sobre a doença. Clarinha concordou: a homenagem devia celebrar a vida, não a morte.
No velório, ela subiu no palanque com as mãos tremendo. Respirou fundo e começou a ler. Falou da avó, das histórias, do avental florido, do pão de queijo. A voz falhou uma vez, mas ela continuou.
— Ela não era perfeita. Mas era nossa. E isso bastava.
Quando terminou, a família inteira estava em lágrimas. A mãe dela abraçou Clarinha e disse: "Ela ia amar." Clarinha guardou o papel dentro da bolsa. Era a última carta que escrevia para a avó.