Um mês depois do enterro da avó, a mãe de Clarinha pediu ajuda para organizar as coisas dela. Clarinha congelou. Entrar no quarto da avó parecia violar um espaço sagrado.
Elas passaram uma tarde no apartamento. A mãe abriu o guarda-roupa e o cheiro da avó ainda estava nas roupas. Clarinha sentou na cama e chorou. A mãe deixou ela chorar.
— A gente não precisa fazer tudo hoje — a mãe disse.
Separaram três pilhas: doar, guardar, jogar fora. A mãe quase jogou fora o avental florido, mas Clarinha pediu para ficar. Também pegou a receita do pão de queijo e a colher de pau que a avó usava.
— Não precisa ter pressa — a mãe repetiu.
Clarinha descobriu que cada objeto contava uma história. O pote de biscoitos que a avó usava para guardar botões. A agenda telefônica com números riscados. O terço na gaveta do criado-mudo. Cada item merecia um adeus.
Elas levaram duas semanas para terminar. Não foi uma faxina. Foi um ritual. No final, Clarinha guardou os objetos que escolheu numa caixa. O avental, a receita, a colher de pau, uma foto delas duas na cozinha.
Não abriu a caixa nos meses seguintes. Mas sabia que estava lá. E que um dia, quando doesse menos, ela abriria.