Clarinha pensou que o luto era uma linha reta: primeiro tristeza, depois aceitação. Mas a experiência de perder a avó mostrou que era mais parecido com uma montanha-russa.
No começo, ela sentiu um choque. A cabeça não aceitava que a avó tinha ido. Nos primeiros dias, ela pegava o telefone para ligar para ela. Depois lembrava e o golpe vinha de novo. Era a fase da negação.
Depois veio a raiva. Raiva da doença, raiva dos médicos, raiva de Deus, raiva de si mesma por não ter visitado mais. Ela sabia que não era racional, mas não conseguia evitar. Batia a porta, respondia mal a Beto, chorava no chuveiro. Beto não revidava. Só ficava por perto.
Veio a barganha: "Se eu tivesse ido naquele domingo... Se tivesse insistido para ela fazer o exame..." Clarinha passou noites remoendo cenários alternativos. Até que entendeu que não adiantava.
A tristeza profunda veio depois. Dias em que ela não saía da cama. Não sentia fome. Não queria ver ninguém. Foi a fase mais longa.
E um dia, sem aviso, ela acordou e sentiu vontade de fazer pão de queijo. Não era alegria. Era uma trégua. Aceitação não significava estar bem. Significava aprender a conviver com a ausência. Clarinha entendeu que o luto não tinha prazo e que cada fase era necessária.