Dona Marta participou de um grupo de apoio ao luto depois de perder o marido. Lá ouviu histórias que a fizeram refletir sobre o poder das palavras. Muitas pessoas bem-intencionadas diziam coisas que só aumentavam a dor.
Uma senhora do grupo contou que ouviu "Você é jovem, ainda vai casar de novo" uma semana depois do enterro do marido. Outra disse que o chefe mandou "Superou? Já dá pra voltar ao normal?" no terceiro dia de luto. Dona Marta lembrou do vizinho que disse "Deus quis assim" e ela passou uma semana com raiva de Deus.
Dona Marta resolveu escrever uma lista para não repetir os mesmos erros. Anotou as piores frases: "Você precisa ser forte" (como se fraqueza fosse opção), "Ele está em um lugar melhor" (desvaloriza o sofrimento), "Tudo acontece por uma razão" (invalida a dor), "Pelo menos ele não sofreu" (como se o sofrimento de quem fica não contasse), "Você vai superar" (pressão para acelerar o luto), "Imagino como você está se sentindo" (ninguém imagina).
Ela também aprendeu o que fazer em vez disso. Oferecer ajuda concreta: "Vou levar jantar amanhã." Validar a dor: "Isso deve estar muito difícil." Ficar em silêncio: só sentar do lado e ouvir.
Dona Marta passou a ser mais cuidadosa com as palavras. Sabia que o luto não tinha atalho. E que o melhor presente que podia dar a alguém que sofria era a paciência de caminhar junto, sem pressa de chegar a lugar nenhum.