Clarinha recebeu a ligação da mãe no meio da tarde. A avó materna tinha falecido. Ela sentou na beira da cama sem conseguir falar. Beto entrou no quarto e viu o rosto dela. Sentou ao lado e segurou a mão dela.
— A vó Maria morreu — Clarinha disse, a voz falhando.
Ela passou horas lembrando. A avó que ensinou ela a fazer pão de queijo. A avó que contava as mesmas histórias toda vez que visitava. O avental florido que ela usava. O jeito que ela chamava Clarinha de "minha flor".
Beto arrumou as passagens para a cidade da família no interior. Clarinha ficou em silêncio no carro durante a viagem. Quando chegou na casa da avó, viu a sala cheia de gente. A mãe dela estava sentada no sofá, com o olhar vazio. Clarinha abraçou a mãe e as duas choraram juntas.
Depois do velório e do enterro, Clarinha passou semanas sem energia. Não conseguia cozinhar, esquecia compromissos. Sentava no sofá e olhava para o nada. Até que um dia encontrou a receita do pão de queijo, escrita à mão pela avó. Fez a receita com Pedro. Quando o pão de queijo saiu do forno, sentiu a avó perto.
— A vó Maria ia gostar — Pedro disse.
Clarinha sorriu, os olhos cheios de lágrimas. Ia gostar sim.