Ela tinha o discurso pronto: "Carlos, eu só fumo maconha socialmente, não é todo dia, não atrapalha minha vida." Mentira. Era todo dia sim, e atrapalhava sim. Mas ela tinha tanto medo de ser rotulada de dependente química que preferia minimizar do que pedir ajuda. Toda vez que ele perguntava sobre o consumo dela, ela mudava de assunto ou dava uma resposta evasiva. "Ah, de vez em quando." "Só pra relaxar."
Até que uma noite ela acordou às três da manhã, depois de ter fumado sozinha no quarto, e sentiu um vazio tão grande que parecia que iam engolir ela. Olhou pro lado e viu o cinzeiro cheio. E pensou: "Isso não é social. Isso não é relaxar. Isso é apagar." Na sessão seguinte, ela chegou e falou: "Carlos, eu acho que estou usando maconha de um jeito que não é saudável."
Ele não surtou. Ele não entregou ela pra ninguém. Ele perguntou o que ela sentia antes de acender o primeiro baseado do dia. E ela descobriu que não era vontade de fumar. Era ansiedade. Era solidão. Era uma falta de ferramentas pra lidar com o que sentia. A substância não era o problema — era o sintoma.