Ela entrou no consultório do Carlos com um casaco de manga comprida no meio do verão. Ele não disse nada, mas ela sabia que ele sabia. A gente desenvolve um radar pra essas coisas — o jeito como a pessoa cruza os braços, como evita certos gestos, como desvia o olhar quando a pergunta é sobre o corpo. Naquela sessão, ela contou tudo, menos o que importava. Falou de ansiedade, de insônia, de crise existencial. Mas não mostrou o antebraço.
Levou mais três semanas até conseguir falar. Foi numa quarta-feira chuvosa, no final da sessão, quando ela já estava de pé pra ir embora. "Carlos, tem uma coisa que eu nunca te contei." Sentou de volta, puxou a manga e mostrou. As cicatrizes, algumas velhas, outras nem tanto. Ela esperava horror, lição de moral, um encaminhamento na hora. O que ele fez foi perguntar: "Tem quanto tempo que você está lidando com isso sozinha?"
Naquele instante, a vergonha que ela carregava há anos perdeu um pouco da força. Ele não precisou de protocolo dramático. Precisou de acolhimento. E ela precisou entender que automutilação não é um segredo sujo — é um sintoma. Um pedido de ajuda que o corpo aprendeu a fazer quando as palavras não deram conta.