Ela estava deitada no sofá da sala, olhando pro teto, sentindo o peito apertar como se alguém estivesse sentado em cima dela. A crise veio sem avisar — uma onda de desespero que começou com um e-mail simples e terminou com ela hiperventilando no chão do banheiro. Quando chegou na sessão, ela mal conseguia formar frases. Falou sobre o trânsito, sobre o trabalho, sobre qualquer coisa, menos sobre o que realmente estava acontecendo.
O Carlos percebeu. Claro que percebeu. Mas ele não é adivinho. Ele esperou, olhou pra ela com aquele olhar calmo e perguntou: "Luísa, o que você não está conseguindo me dizer hoje?" E ela desabou. Contou que achava que estava enlouquecendo, que a crise tinha pego ela desprevenida e que ela tinha medo de que ele a julgasse por não conseguir lidar com algo tão besta quanto um e-mail.
Foi ali que ela entendeu: crise não precisa vir com explicação bonita. Não precisa vir com contexto perfeito. Ela pode chegar pelada, confusa, feia. E o papel do terapeuta não é arrumar a crise — é ficar do lado enquanto a pessoa aprende a atravessar ela. Depois disso, ela combinou com o Carlos um jeito de começar as sessões ruins: "Hoje estou em crise e não sei por onde começar." Pronto. Ele pegava dali.