Carlos percebeu que os problemas em casa não eram só dele ou de Clarinha. Pedro estava mais retraído, respondia com monossílabos e passava horas no quarto. A escola tinha enviado um bilhete dizendo que ele estava disperso nas aulas. Algo não ia bem.
— Talvez a gente precise de terapia familiar — sugeriu Clarinha, depois de uma noite particularmente difícil.
— Chamar todo mundo? Até o Pedro? — estranhou Carlos.
— Sim. O problema não é só nosso. Ele sente quando a gente briga.
A terapeuta familiar recebeu os três na sala ampla. Começou brincando com Pedro, desenhando, deixando ele à vontade. Depois, com cuidado, perguntou como era a casa dele.
— Meus pais brigam muito — disse Pedro, sem levantar os olhos do desenho. — Aí eu vou para o quarto e coloco fone.
Carlos sentiu o coração apertar. Nunca tinha pensado que Pedro ouvia as discussões. A terapeuta explicou que as crianças absorvem o clima emocional da casa, mesmo quando não estão no mesmo cômodo.
— Terapia familiar não é para colocar culpa em ninguém — explicou. — É para todos aprenderem a se comunicar melhor.
Nas sessões seguintes, Carlos e Clarinha aprenderam a resolver divergências longe de Pedro. Ele, por sua vez, ganhou espaço para expressar o que sentia sem medo. A família inteira se beneficiou. A terapia não era um problema, era a solução que eles não tinham encontrado sozinhos.