Clarinha via Beto definhando. Ele não dormia, não comia direito, explodia por qualquer coisa. Ela sabia que ele precisava de ajuda, mas cada vez que mencionava terapia, ele se fechava.
— Você está pirando com essa história de terapia — ele dizia.
Clarinha queria gritar, mas aprendeu na própria terapia que pressão não funciona. Em vez disso, mudou a abordagem.
— Amor, eu vou marcar uma consulta para mim na quinta. Se você quiser, pode vir comigo. Só para conhecer o lugar.
— Não preciso.
— Não estou dizendo que precisa. Estou dizendo que pode, se quiser.
Clarinha não insistiu. Falou da própria experiência: como a terapia a ajudava, como era bom ter um espaço para desabafar, como não era nada do que ele imaginava.
— Lá você pode falar o que quiser. Até reclamar da terapia.
Beto riu. Ela deixou o assunto de lado por alguns dias. Depois, contou que uma amiga do trabalho tinha começado terapia e estava adorando. Falava como quem conta sobre um filme que viu.
— Cada um tem seu tempo — disse a psicóloga de Clarinha, quando ela pediu orientação. — Você não pode querer mais que ele. Mas pode mostrar que o caminho existe.
Foi numa noite em que Beto acordou no meio da madrugada, suando, com o coração disparado, que ele mesmo disse:
— Marca essa tal de terapia para mim.
Clarinha não disse "eu te avisei". Apenas abraçou ele e disse: "Vou marcar sim. E vou com você na primeira vez, se quiser."
Beto aceitou a mão estendida. E Clarinha entendeu que incentivar não é forçar. É estar ao lado, pronta para apoiar quando a pessoa decide dar o passo sozinha.