Beto sempre segurou o choro. Homem não chora, aprendeu desde pequeno. Na terapia, quando sentia os olhos marejarem, desviava o olhar, mudava de assunto, engolia o choro. Até que a psicóloga percebeu.
— Você está segurando algo.
— Não. Estou bem.
— Seus olhos estão vermelhos. O que está sentindo agora?
Beto tentou falar, mas a voz falhou. Uma lágrima escapou. Ele enxugou rápido, constrangido.
— Tudo bem chorar aqui. Este é um lugar seguro.
— Mas homem não chora — disse Beto, com a voz embargada.
— Isso é uma regra que te ensinaram, não uma verdade. Chorar é uma resposta humana ao que sente. Aqui você pode ser humano.
Beto deixou o choro vir. Não foi um choro bonito, foi soluçado, com o rosto nas mãos. Falou da pressão que sentia, do medo de falhar, da solidão. Quando parou, sentiu-se envergonhado, mas também aliviado.
— Como está agora? — perguntou a psicóloga.
— Cansado. Mas mais leve.
— O choro libera tensão. É o corpo processando emoções que estavam presas.
Depois da sessão, Beto foi para casa e dormiu profundamente pela primeira vez em semanas. Entendeu que chorar não o fazia menos homem. O fazia humano. E que a terapia era o único lugar onde ele podia deixar as lágrimas caírem sem precisar se justificar.