Beto guardava rancor de um ex-chefe que o humilhou na frente de todos anos atrás. Sempre que lembrava, sentia o sangue ferver. Relembrava a cena, imaginava respostas afiadas que poderia ter dado. Mas o ex-chefe nem sabia que Beto ainda sofria.
— O rancor é como tomar veneno e esperar que o outro morra — disse a psicóloga.
Beto riu, mas entendeu. Ele era o único que continuava sofrendo. O ex-chefe tinha seguido a vida, e Beto continuava preso naquele dia.
— Como faço para soltar?
— Primeiro, reconheça que o rancor te protegeu. Na época, você não podia revidar, e o rancor foi uma forma de não engolir a humilhação. Mas hoje você não precisa mais dessa proteção.
Beto escreveu os detalhes do ocorrido. Leu em voz alta. A psicóloga pediu que ele imaginasse o ex-chefe na sua frente e dissesse tudo que não disse na época. Beto gritou, xingou, chorou. Depois, sentiu um cansaço, mas também um alívio.
— Agora você precisa devolver o que não é seu. A humilhação é do seu ex-chefe, não sua. Você só carregou porque alguém te deu.
Beto imaginou colocando a humilhação numa caixa e devolvendo. Parecia bobo, mas funcionou. A imagem ficou na cabeça.
— Deixar o rancor ir não é esquecer. É escolher não carregar mais.
Com o tempo, Beto percebia que a história ainda existia, mas já não doía. Ele tinha soltado o passado para viver o presente.