Carlos sempre teve pavio curto. Uma discussão no trânsito, um erro no trabalho, uma resposta atravessada de Pedro — e ele explodia. Gritava, batia a mão na mesa, dizia coisas de que se arrependia depois. A culpa vinha logo em seguida.
— A raiva não é ruim em si — explicou a psicóloga. — É uma emoção como outra qualquer. O problema é quando ela te controla em vez de você controlá-la.
Carlos aprendeu a identificar os sinais físicos da raiva: mandíbula tensa, punhos cerrados, respiração curta. Esses sinais apareciam antes da explosão. Se ele os percebesse a tempo, podia intervir.
— Quando sentir esses sinais, pause. Respire fundo três vezes. Se precisar, saia do ambiente.
— Mas não é fuga? — perguntou Carlos.
— É estratégia. Você se retira para se acalmar, não para evitar o problema. Depois volta para resolver com a cabeça fria.
Outra técnica foi o "time-out combinado". Carlos combinou com Clarinha que, se sentisse a raiva subir, diria "preciso de cinco minutos". Ele ia para o quarto, respirava, se acalmava, e depois voltava para a conversa.
— Nunca resolva nada no calor da raiva. As palavras ditas com raiva são como pregos numa cerca.
Carlos também começou a escrever um diário da raiva. Anotava o que tinha desencadeado, como reagiu, como poderia ter reagido diferente. Aos poucos, as explosões diminuíram. A raiva ainda vinha, mas ele aprendia a senti-la sem ser dominado.