Beto suava frio só de pensar em reuniões. No trabalho, evitava falar em público, almoçava sozinho, saía por último para não pegar o elevador cheio. Em festas de família, ficava num canto, mexia no celular, respondia com monossílabos.
— Será que sou antissocial? — perguntou Beto à psicóloga.
— Existe uma diferença entre ser introvertido e ter ansiedade social. A introversão é preferência. A ansiedade social é medo.
A psicóloga explicou que Beto tinha medo de ser julgado, de passar vergonha, de não saber o que dizer. Ele se preocupava dias antes de um evento social, imaginando cenários catastróficos.
— O que aconteceria se você falasse algo errado numa reunião?
— As pessoas iam rir de mim.
— E depois?
— Eu ficaria com vergonha.
— E o que mais?
Beto pensou. Na verdade, nada de tão grave. As pessoas continuariam o trabalho, a vida seguiria. O medo era maior do que a consequência real.
A terapia usou exposição gradual. Beto começou dizendo "bom dia" para um colega novo. Depois comentou sobre o tempo no elevador. Depois deu uma opinião simples numa reunião.
— Como foi? — perguntou a psicóloga.
— Ninguém riu. Ninguém sequer prestou atenção.
— É o que acontece na maioria das vezes. As pessoas estão ocupadas demais consigo mesmas.
Beto aprendeu que a ansiedade social diminuía com a prática. O medo não desapareceu, mas deixou de controlar suas escolhas. Passou a ir a festas, a falar nas reuniões, a se sentir parte do grupo.