Carlos nunca tinha pensado muito na própria infância. Cresceu numa casa simples, com pais que trabalhavam o dia inteiro. Não faltou comida, mas também sobrava afeto. Na terapia, a psicóloga puxou o fio.
— Como era seu pai?
— Trabalhava muito. Não lembro dele brincar comigo.
— E sua mãe?
— Também trabalhava. Era carinhosa, mas cansada. Acho que nunca tive atenção de verdade.
Carlos começou a perceber que muitos dos seus comportamentos adultos vinham daí. A dificuldade em pedir ajuda, a sensação de que precisava resolver tudo sozinho, o desconforto com elogios.
— A criança que não recebeu atenção suficiente aprende a não pedir — explicou a psicóloga. — Mas a necessidade continua lá, escondida.
O trabalho terapêutico envolveu reconectar Carlos com essa criança. Ele trouxe fotos antigas para a sessão, escreveu cartas para o Carlos de sete anos. Em um exercício, a psicóloga pediu que ele imaginasse o menino que foi e dissesse: "Você não precisa mais cuidar de tudo sozinho. Agora eu cuido de você."
— É estranho — disse Carlos, emocionado. — Mas parece que algo se soltou dentro de mim.
Revisitar a infância não era para culpar os pais. Era para entender origens e curar feridas que Carlos carregava sem saber. Ao cuidar do menino que foi, ele se tornou um adulto mais inteiro.