Luísa não entendia por que certas situações a desestabilizavam tanto. Um tom de voz mais alto, uma crítica no trabalho, uma porta batendo mais forte — e ela desabava. Na terapia, a psicóloga começou a investigar o passado.
— Você sempre foi assim sensível? — perguntou a psicóloga.
— Desde criança. Meu pai gritava muito.
Aos poucos, Luísa foi conectando os pontos. As brigas dos pais, o medo constante na infância, a sensação de que nunca estava segura. O corpo guardava aquelas memórias, mesmo quando a mente tentava esquecer.
— Trauma não é só um evento grande e violento — explicou a psicóloga. — Pode ser a repetição de pequenas situações que deixaram marcas.
A terapia usou técnicas como EMDR e dessensibilização. Luísa aprendeu a revisitar as memórias dolorosas sem ser dominada por elas. A psicóloga a guiava: — Você está segura agora. Aquilo passou. Você é adulta.
— Mas dói lembrar — disse Luísa.
— Dói porque não foi processado. Seu cérebro guardou como se fosse hoje. A terapia ajuda a arquivar essas memórias no passado, onde elas pertencem.
O processo foi lento. Luísa chorou em várias sessões, saiu exausta de outras. Mas, aos poucos, as reações desproporcionais foram diminuindo. O trauma ainda existia, mas agora tinha um lugar. Não controlava mais a vida dela.