Clarinha fazia terapia há dois meses e ninguém em casa sabia. Ela escondia as sessões da agenda, dizia que ia ao supermercado ou que estava fazendo hora extra. Até que Carlos encontrou um papel do consultório no bolso do casaco dela.
— Você está fazendo terapia? — perguntou ele, sem julgamento.
Clarinha sentiu o estômago embrulhar. — Sim. Estou há dois meses.
— Por que não me contou?
— Tinha vergonha. Medo de você achar que eu sou fraca, que não dou conta das coisas.
Carlos sentou ao lado dela e segurou sua mão. — Fraca? Você é a pessoa mais forte que conheço. Força também é pedir ajuda.
Naquela noite, Clarinha contou para a família durante o jantar. Disse que estava fazendo terapia para lidar com a ansiedade e que estava aprendendo muito. Pedro, curioso, perguntou:
— Terapia é que nem a orientadora da escola?
— Isso mesmo. Uma pessoa que ajuda a gente a entender os sentimentos.
A reação da família foi acolhedora. Carlos passou a respeitar o horário das sessões, e Pedro às vezes perguntava como tinha sido. Clarinha percebeu que o medo de contar era maior que a reação real.
— A gente esconde porque tem vergonha — disse ela à psicóloga. — Mas quando conta, descobre que não está sozinha.
Contar para a família fortaleceu o tratamento. Clarinha não precisava mais inventar desculpas, e tinha em casa o apoio que precisava para continuar.