Seu Antônio cresceu numa época em que psicólogo era coisa de "gente doida". Quando a neta sugeriu que ele procurasse ajuda para a insônia e a irritação, ele riu.
— Eu não preciso falar da minha vida com estranho nenhum — disse, cruzando os braços.
— Vô, não é estranho, é um profissional. A pessoa treina anos para ajudar — respondeu a neta.
Seu Antônio resistiu por meses. Mas as noites sem dormir e as brigas com a vizinhança o convenceram a tentar. Chegou ao consultório com o pé atrás, sentado na ponta da cadeira, esperando que a psicóloga fosse dizer que ele era louco.
— O senhor acha que terapia é para quem? — perguntou a psicóloga.
— Para quem tem problema mental grave.
— E o senhor nunca teve um problema que gostaria de resolver com ajuda?
Ele pensou. Pensou na morte da esposa, na solidão, na dificuldade de se adaptar à aposentadoria. Talvez tivesse, sim.
— Preconceito com terapia é como preconceito com qualquer cuidado de saúde — explicou a psicóloga. — A gente trata o corpo no médico e a mente no psicólogo. Não tem diferença.
Depois de algumas sessões, Seu Antônio admitiu que estava gostando. A insônia melhorou, e ele se sentia menos sozinho. Quando os amigos do bairro perguntavam onde ele ia toda semana, respondia com naturalidade:
— Vou na terapia. Cuido da cabeça, como cuido do coração.
O preconceito que ele tinha era maior do que o dos outros. Superá-lo foi o primeiro passo para se cuidar de verdade.