Ela se tratava como trataria um inimigo. Cada erro era motivo pra surto, cada falha era prova de incompetência, cada olhar no espelho vinha acompanhado de crítica. "Você é fraca", "você não presta", "você nunca vai conseguir". Ela achava que isso era realismo, que ser durona consigo mesma a mantinha nos trilhos.
Quando o Carlos mencionou autocompaixão, ela torceu o nariz. "Isso não é coisa de terapia, é autoajuda de Instagram." Ele não se abalou. "Autocompaixão não é se lamuriar. É se tratar com a mesma gentileza que você trataria uma amiga." Ele pediu pra ela imaginar o que diria a uma amiga que tivesse passado pelo que ela passou. Ela disse palavras de acolhimento. Depois ele perguntou: "E o que você disse pra si mesma?" Silêncio. Ela tinha se esculachado.
Foi um choque. Ela começou um exercício simples: toda vez que a crítica interna aparecesse, ela perguntava "eu falaria isso pra uma amiga?" Quase sempre a resposta era não. Levou meses pra mudar o tom interno. A autocompaixão não a deixou mole — a deixou mais forte, porque parou de gastar energia se destruindo.