Beto era um homem de poucas palavras. Cresceu ouvindo que homem não chora, que problemas se resolvem sozinho, que falar de sentimento é frescura. Agora, sentado no consultório, ele sentia a língua travada.
— Não sei por onde começar — disse Beto, olhando para as mãos.
— Pode começar pelo que vier na cabeça. Não tem certo nem errado — respondeu a psicóloga.
Beto ficou em silêncio por um longo minuto. Depois, soltou uma frase curta:
— Estou cansado.
— Cansado de quê?
— De tudo. De trabalhar, de pagar conta, de fingir que está tudo bem.
Foi a primeira vez que Beto disse aquilo em voz alta. Falar parecia estranho, mas também aliviador. A psicóloga não o apressou, não deu conselhos, apenas ouviu.
— Você passou a vida inteira guardando as coisas para si. É natural que falar seja difícil no começo.
Beto continuou. Falou do trabalho pesado, da falta de tempo para os filhos, do medo de não ser suficiente. Em alguns momentos a voz embargava, mas ele seguiu. No fim da sessão, sentia um peso menor nos ombros.
— Não precisa falar tudo de uma vez — disse a psicóloga. — Aos poucos você vai confiando mais no espaço.
Beto entendeu que se abrir não era fraqueza, mas coragem. E que a terapia era o lugar mais seguro para aprender isso.