Foi um dos assuntos mais difíceis que ele já trouxe pra terapia. Ele tinha vergonha antes mesmo de chegar no consultório. Na cabeça dele, o Carlos iria olhar diferente, iria achar que ele era um estranho, um doente, alguém que não tinha controle sobre si mesmo. Passou semanas rodeando o assunto — falava de tédio, de falta de motivação, de dificuldade de concentração — tudo menos o que realmente estava por trás.
Até que numa sessão, depois de um silêncio longo, ele soltou: "Carlos, eu tenho um problema com pornografia." A palavra saiu e ele esperou o julgamento. Carlos agradeceu pela coragem e perguntou como aquilo tinha começado. Ele contou que nos últimos meses o consumo tinha escalado a ponto de atrapalhar o trabalho, o sono, a vida sexual. Que ele tentava parar mas recaía, e cada recaída vinha com uma culpa que afundava mais.
Carlos explicou que dependência de pornografia ativa os mesmos circuitos do cérebro que qualquer outro vício. E que a vergonha, mais do que o consumo em si, era o que mantinha ele preso. A partir dali, eles trabalharam os gatilhos, a solidão, a fantasia de que a pornografia preenchia algo que faltava. Não foi um processo rápido. Mas foi o começo de uma relação mais saudável com a própria sexualidade.