Luísa não conseguia largar o celular. Não era exagero — ela literalmente levava ele pra tudo: pra mesa do jantar, pro banheiro, pra cama. Acordava e a primeira coisa que via era a tela. Dormia com o celular na mão. Quando o Carlos perguntou quanto tempo por dia ela passava no telefone, ela desconversou. "Ah, normal." Ele insistiu: "Tem noção de quantas horas?" Naquela noite ela foi ver no relatório do próprio aparelho. Seis horas e quarenta e sete minutos. Por dia.
Na sessão seguinte, ela chegou envergonhada. "Carlos, seis horas. Eu passo seis horas por dia olhando pra essa tela." Ele não riu. Ele perguntou: "O que você sente quando fica sem ele?" Ela nunca tinha pensado nisso. A resposta foi: ansiedade. Um desconforto físico. Uma sensação de estar perdendo alguma coisa. E aí a gente começou a trabalhar de verdade — não no celular, mas na ansiedade que ele escondia.
A dependência de celular não é sobre o aparelho. É sobre o que a gente foge quando mergulha nele. Falar sobre isso na terapia a ajudou a entender que ela não precisava largar o celular — precisava largar a fantasia de que ele ia preencher o que faltava dentro dela.