Ela fumava escondida. Não dos outros — de si mesma. Dizia que era social, que só fumava quando bebia, que era um ou dois por dia. Mas a verdade é que o cinzeiro dela no trabalho vivia cheio e suas pausas para fumar eram tão frequentes que o chefe dela já tinha comentado. Quando começou a terapia com o Carlos, tabagismo parecia um assunto menor. "Isso é vício físico, não emocional", ela pensava. "Não tem nada a ver com terapia."
Até que numa sessão, enquanto ela falava sobre ansiedade, percebeu que tinha acendido um cigarro imaginário com os dedos. O Carlos reparou. "O que o cigarro faz por você quando você está ansiosa?" Ela parou. Nunca tinha pensado nisso. O cigarro não era sobre nicotina — era sobre ter algo pra fazer com as mãos, ter uma desculpa pra sair da sala, ter um ritual que acalmava quando tudo parecia fora de controle.
Ela falou sobre tabagismo com vergonha, como se fosse um problema menor. O Carlos ouviu como ouvia qualquer outro. Explicou que dependência de nicotina não é menos legítima que qualquer outra, e que entender a função emocional do cigarro era o primeiro passo para substituí-lo por algo que não fizesse mal.