Ela nunca se considerou alcoólatra. Tinha o discurso pronto: "Bebo como todo mundo, não atrapalha o trabalho, nunca dirijo bêbada." Mas a verdade é que ela não lembrava da última vez que tinha passado um dia sem uma taça de vinho. Ou duas. Ou a garrafa inteira, dependendo do dia. Quando o Carlos perguntou sobre os hábitos dela, ela riu: "Bebo socialmente." Ele inclinou a cabeça e perguntou: "Socialmente com quem, Luísa?"
Doía porque era verdade. Ela bebia sozinha. Beber tinha virado um ritual de fim de tarde, um prêmio por ter sobrevivido ao dia. Não era mais sobre prazer — era sobre apagar o cansaço, a ansiedade, a sensação de não ser suficiente. Levou meses até conseguir falar sobre isso sem rodeios. Uma tarde, depois de um final de semana de ressaca que começou na quinta, chegou na sessão e falou: "Carlos, acho que perdi o controle."
Ele não mandou ela parar de beber. Ele perguntou o que o vinho fazia por ela que ela não conseguia fazer por si mesma. Foi a pergunta que mudou tudo. Porque ela não precisava de álcool — ela precisava de descanso, acolhimento, e um jeito de lidar com a pressão que não viesse dentro de uma garrafa.