Clarinha já estava no quarto mês de terapia e tinha criado uma rotina: quinta-feira, dezoito horas, consultório da Dra. Renata. Ela chegava, sentava na poltrona, e a psicóloga começava com a mesma pergunta:
— Como foi a semana?
Não era uma pergunta de cortesia. Clarinha aprendeu que a sessão era um espaço para falar do que realmente importava. Às vezes começava falando do trânsito, mas logo a Dra. Renata perguntava como aquilo a fazia sentir.
— Aqui não tem assunto proibido. Pode falar de raiva, de medo, de vergonha.
Clarinha levou semanas para se abrir completamente. No início, escondia os sentimentos que considerava feios, como ciúmes ou frustração com os filhos. Mas a terapeuta criava um ambiente seguro, sem julgamento.
— O que você sente quando fala disso agora? — era uma pergunta frequente.
Aos poucos, Clarinha entendeu que a terapia não era um conselho, mas uma descoberta. A psicóloga não dizia o que fazer, mas ajudava a enxergar o que já estava lá dentro. Era como limpar um espelho embaçado.
— A terapia é o lugar onde você pode ser você mesma, sem máscaras — disse a Dra. Renata.
No fim das sessões, Clarinha sentia um misto de cansaço e alívio. Era um trabalho, sim, mas um trabalho para si mesma. E ela sentia que valia cada minuto.