Fazia dois anos que Beto não ia ao dentista. Dois anos, três meses e uns dias — Clarinha sabia porque anotava.
— Sua gengiva sangrou ontem — ela disse no café da manhã.
— Escovei muito forte.
— Mentira. Você tem medo de dentista.
Beto colocou a xícara na mesa. — Não tenho medo. É que eu odeio aquela broca. Aquele barulho.
— Vou marcar.
— Clarinha…
— Já marquei. Hoje às quatro.
O consultório era claro, cheiro de hortelã. A dentista, uma moça nova, paciente. Beto sentou na cadeira, os dedos apertando o braço.
— Vou só olhar — ela disse.
Exame, raio-X, limpeza. Nada de broca. Beto saiu atordoado.
— Foi só uma limpeza — ele disse, estranhando. — E a cárie?
— Não tem cárie — Clarinha respondeu. — Mas se você esperasse mais um ano, teria.
— Tô devendo uma pra você. De verdade.