O pedido de exames estava na gaveta da cozinha há três meses. Beto passava por ela todo dia e desviava o olhar.
— Marcou? — Clarinha perguntava semanalmente.
— Vou marcar.
— Beto, já faz três meses.
— Eu sei. Vou marcar essa semana.
A semana passou. Depois mais uma. Até que Clarinha pegou o papel, ligou para o laboratório e marcou.
— Segunda, oito da manhã. Jejum. Pode reclamar.
— Você não podia ter feito isso!
— Já fiz. Agora vai.
Na segunda, Beto foi. Sentou na sala de espera, braço cruzado, cara fechada. Fez o exame em quinze minutos.
— Pronto — a enfermeira disse. — Resultado em três dias.
— Só isso?
— Só.
Beto saiu do laboratório confuso. Três meses de ansiedade para quinze minutos de exame.
— Viu? — Clarinha disse no carro. — Não dói nada.
— A culpa que dói é pior que a agulha.