Clarinha percebeu que a relação sexual com Beto tinha mudado. Não era mais a mesma urgência dos primeiros anos, aquele fogo que consumia tudo. Agora era diferente — mais lento, mais cuidadoso, mas também cheio de silêncios que antes não existiam. Silêncios que pesavam.
— Você sente vontade? — ela perguntou uma noite, na cama.
— Claro que sinto. Você não?
— Sinto. Mas é diferente.
— Diferente como?
Ela demorou a responder. As palavras pareciam difíceis.
— Antes era mais fácil. O corpo respondia rápido. Agora… precisa de mais tempo. Mais carinho. Mais conversa antes.
Beto virou para o lado.
— Acho que é assim mesmo. Não é falta de amor. É que a gente mudou.
— Você sente falta do que era antes?
— Sinto. Mas gosto do que é agora.
— Gosta mesmo?
— Gosto. Porque agora eu te conheço melhor. Sei onde tocar, como tocar. Não é mais descoberta. É certeza.
Clarinha encostou a cabeça no ombro dele.
— Eu tenho medo de você não me achar mais atraente.
— Nunca. Você é a mulher mais bonita que eu já vi. Mais bonita agora do que aos vinte. Porque agora você é real.
Ela sentiu o corpo relaxar. Naquela noite, fizeram amor devagar. Não como antes, mas melhor do que antes. A maturidade tinha tirado a pressa e deixado a intimidade. Clarinha entendeu que o desejo não acaba — só muda de forma.