Beto sempre achou que cochilo era coisa de criança e de velho. Ele era do tipo que passava o dia inteiro em pé, resolvendo problemas, sem parar. Mas depois dos 50, algo mudou. O almoço virou um portal para o sono. A comida descia e o corpo pedia pausa.
— Você está dormindo de novo? — perguntou Clarinha, encontrando ele no sofá com a boca aberta e a televisão ligada num canal de culinária.
— Não estou dormindo. Estou descansando os olhos.
— Você estava roncando.
— Estava não.
— Estava sim. Até o cachorro saiu da sala.
Beto sentou, esfregando o rosto. Eram duas da tarde. Ele tinha dormido quarenta minutos sem perceber.
— Isso está ficando frequente — admitiu.
— E qual o problema?
— Problema é que sou novo para isso.
— Você tem 51 anos. Não é novo. Não é velho. É meio-termo.
— Meio-termo que precisa de soneca? Isso é derrota.
Clarinha sentou ao lado dele.
— Cochilo não é derrota. Cochilo é estratégia. Você trabalhou a vida inteira. O corpo está pedindo descanso. Não vejo problema em ouvir.
Beto pensou no assunto. Leu sobre sesta. Descobriu que muitos países têm o hábito do descanso depois do almoço. Que o corpo humano tem um ciclo natural que pede uma pausa no meio do dia. Que cochilos de vinte a trinta minutos melhoram a produtividade.
— Tá bom — ele cedeu. — Vou adotar a sesta.
— E vou comprar uma manta pra você.
— Manta?
— Pra não pegar frio enquanto ronca.
Ele riu. No dia seguinte, depois do almoço, deitou no sofá com a manta nova. Cochilou vinte minutos. Acordou disposto. Percebeu que não era fraqueza — era sabedoria.