Clarinha achava que conhecia Beto por inteiro. Trinta anos de casamento, dois filhos, uma vida inteira de rotina. Sabia que ele roncava quando dormia de barriga para cima, que não suportava cenoura crua e que cantava no chuveiro fora do tom. Achava que não havia mais segredos.
Até o dia em que encontrou um caderno no escritório dele.
— O que é isso? — perguntou, quando ele chegou do trabalho.
Beto ficou vermelho.
— Onde você achou isso?
— Na gaveta. Estava aberta.
— É um diário.
— Diário?
— Não é bem diário. São pensamentos. Coisas que eu queria escrever.
Clarinha abriu o caderno. Leu algumas páginas. Beto escrevia sobre o medo de envelhecer, sobre o orgulho que sentia dos filhos, sobre como olhava para ela e ainda sentia o coração acelerar. Era um homem que ela conhecia, mas não assim. Não por dentro.
— Você nunca me disse essas coisas — ela falou, a voz embargada.
— Não sei falar. Escrever é mais fácil.
Naquela noite, Clarinha pegou o caderno dela. Durante anos, ela também escrevia — poemas bobos, reflexões, cartas que nunca enviou. Mostrou para Beto.
— Trinta anos e a gente ainda tem coisas pra descobrir um do outro — ela disse.
— Bom sinal — ele respondeu. — Significa que ainda temos chão.
Passaram a noite lendo um para o outro. Ela descobriu que Beto ainda era o mesmo homem por quem se apaixonou, só que mais fundo. E ele descobriu que ela guardava segredos que valiam a pena serem contados.