Como lidar com o corpo que não responde como antes?

Beto

Beto sempre foi um homem ativo. Carregava compras, subia escadas sem pensar, passava fins de semana inteiros fazendo serviços em casa. Mas um dia, ao levantar uma caixa de livros no escritório, sentiu uma dor nas costas que não passou com uma noite de sono. Nem com duas. Nem com uma semana.

— Estou velho — disse para Clarinha, deitado no sofá com uma bolsa de água quente na lombar.

— Você não está velho. Você está com uma contratura.

— Contratura de velho.

O médico foi direto: "Seu corpo não tem mais vinte anos. O senhor precisa se cuidar." Receitou fisioterapia, alongamento e, pela primeira vez na vida, disse a palavra "artrose" como se fosse um parente distante que chega e fica.

— Artrose? Isso é coisa de idoso — protestou Beto.

— É coisa de quem usou o corpo a vida inteira — respondeu o médico. — As juntas desgastam. Faz parte.

Na fisioterapia, Beto conheceu gente de todas as idades. Uma moça de 30 anos com hérnia de disco. Um rapaz de 25 com tendinite crônica. Ele percebeu que o corpo não obedece a calendário.

— A diferença é que a recuperação demora mais — explicou a fisioterapeuta. — Antes, seu corpo se resolvia sozinho. Agora, você precisa ajudar.

Ele começou a fazer alongamento todo dia. Comprou um tapete de yoga (e escondeu quando os amigos vieram visitar). Passou a levantar peso com a postura certa. A dor não desapareceu completamente, mas diminuiu.

— Como está a sua coluna? — perguntou Clarinha um dia.

— Ainda dói um pouco. Mas eu aprendi a ouvir o corpo.

— Ouvir o corpo?

— É. Antes eu ignorava. Agora, quando ele fala, eu paro.

— Isso se chama maturidade.

— Ou velhice.

— Os dois.