Beto sentou na varanda com uma caneca de café. O sol da manhã aquecia o rosto. Ele olhou para trás e viu uma vida inteira. Os erros, os acertos, as pessoas que amou, as que perdeu. O saldo, ele sentia, era positivo.
— Em que você está pensando? — perguntou Clarinha, sentando ao lado.
— Na vida.
— Na vida?
— Se eu fosse escrever um livro sobre a minha vida, o título seria "Valeu a pena".
Clarinha sorriu.
— Valeu mesmo?
— Cada dia. Cada briga. Cada reconciliação. Cada noite em claro com o Pedro doente. Cada fim de mês apertado. Cada viagem. Cada silêncio.
— Até os erros?
— Principalmente os erros. Foram eles que me ensinaram.
Beto pegou a mão de Clarinha. As mãos envelhecidas, com manchas e rugas. As mesmas mãos que ele segurou no altar, no hospital quando Pedro nasceu, na despedida dos pais, na chegada dos netos.
— Você faria tudo de novo? — perguntou ela.
— Tudo. Com você.
— Mesmo com as partes difíceis?
— As partes difíceis foram as que mais me fizeram crescer. Se eu pudesse, mudaria algumas coisas. Pequenas coisas. Mas o essencial, não.
— O que é o essencial?
— Você. Pedro. Miguel. A família. O amor.
Clarinha apoiou a cabeça no ombro dele. O sol subia. O dia começava. Eles não eram mais jovens. Mas estavam vivos. Juntos. E isso era tudo.
— Vamos tomar outro café? — ele perguntou.
— Vamos.
— E depois?
— Depois a gente vive.
— Sempre.
— Sempre.