Beto passou três semanas namorando um carro vermelho na internet. Um conversível seminovo, dois lugares, câmbio automático. Toda noite, depois que Clarinha dormia, ele abria o site da concessionária e ficava olhando as fotos. Na quarta semana, foi fazer um test drive.
— Que máquina — disse o vendedor, um rapaz de uns trinta anos. — O senhor vai chamar atenção.
— É, né? — Beto respondeu, com um sorriso que tentava esconder a vergonha.
Ele dirigiu o carro por vinte minutos. O vento no rosto, o motor roncando. Sentiu-se jovem de novo. Mas quando voltou para a concessionária, olhou o carro dele no estacionamento — um sedan confiável de oito anos, com cadeirinha de neto no banco de trás.
— Vou pensar — disse para o vendedor.
Em casa, Clarinha percebeu que ele estava diferente.
— O que houve?
— Nada.
— Você está com cara de quem fez besteira ou quase fez.
Beto contou do test drive. Ela não riu.
— Você quer comprar um carro esportivo?
— Queria. Acho que queria sentir que ainda sou jovem.
— Beto, você tem 50 anos. E daí? Eu também tenho. A gente não precisa de um carro vermelho pra provar nada.
— Eu sei. Mas é difícil aceitar.
— Aceitar o quê?
— Que não sou mais o cara de trinta.
Clarinha se aproximou.
— Você não é o cara de trinta. Você é o cara de cinquenta. Que é muito melhor. Mais calmo, mais maduro, mais experiente. E que ainda me ama.
— Ainda amo.
— Então não precisa do carro.
Beto não comprou o carro. Mas entendeu que a crise dos 50 não era sobre o carro. Era sobre aprender a gostar de quem ele era agora.