Como é o amor depois de uma vida inteira juntos?

Clarinha

Clarinha percebeu que o amor tinha mudado. Não era mais o amor de cinema, com declarações e surpresas. Era um amor silencioso. Beto fazia café todas as manhãs e deixava a xícara na mesa dela sem dizer nada. Ela comprava o pão que ele gostava sem perguntar.

— A gente não conversa mais como antes — ela disse, numa tarde.

— Conversamos.

— Conversamos sobre contas, sobre neto, sobre o jantar. Não sobre a gente.

Beto pensou.

— O que você quer conversar?

— Não sei. Só sinto que a gente se perdeu nas tarefas.

Ela estava sentindo falta das conversas profundas que tinham no começo. Do olho no olho. Do toque que não era só costume. Beto ouviu. Não respondeu na hora. Mas naquela noite, na cama, ele virou para o lado e perguntou:

— Do que você tem medo?

— Medo?

— Você disse que a gente não conversa. Então vamos conversar. Do que você tem medo?

Clarinha ficou em silêncio. Depois respondeu:

— De chegar no fim e sentir que a gente não se aproveitou.

— E como a gente se aproveita?

— Aproveitar é estar junto de verdade. Não só no mesmo cômodo.

— Como agora?

— Como agora.

Eles ficaram conversando até tarde. Sobre medos, sobre sonhos, sobre o que ainda queriam fazer. O amor tinha mudado, sim. Não era mais a chama do começo. Era a brasa. E brasa dura mais que chama.