Como olhar para o passado sem arrependimento?

Beto

Beto encontrou uma caixa no fundo do armário. Dentro, cartas que ele escreveu mas nunca mandou. Cartas para o pai, que já tinha morrido. Cartas para o chefe que o demitiu. Cartas para ele mesmo, escritas em momentos de raiva ou tristeza.

— O que é isso? — perguntou Clarinha.

— Coisas que eu não tive coragem de dizer.

— E agora?

— Agora é tarde.

Ele leu algumas. As palavras doíam. Arrependimentos, mágoas, oportunidades perdidas. Coisas que ele gostaria de ter dito e não disse.

— Você guarda isso há quanto tempo?

— Décadas.

— Por quê?

— Porque não sabia o que fazer com elas.

Clarinha sentou ao lado dele.

— Você pode queimar.

— Queimar?

— Ou guardar. Ou ler em voz alta. O que você precisar para se livrar disso.

Beto pensou. Pegou uma carta para o pai, que falava sobre coisas não ditas. Leu em voz alta. A voz falhou no meio. Quando terminou, estava chorando.

— Eu nunca disse isso para ele.

— Ele sabia.

— Sabia?

— Pais sabem. Mesmo sem ouvir.

Beto queimou as cartas, uma por uma, no quintal. As cinzas voaram no vento. Ele sentiu um peso saindo dos ombros.

— Não posso mudar o passado — disse para Clarinha. — Mas posso escolher não carregar ele nas costas.

— E escolheu?

— Escolhi.

— Então vamos viver o que tem de vida.

— Vamos.