Como lidar com o vazio depois que os netos crescem?

Clarinha

Miguel cresceu. De repente, o menino que passava os fins de semana na casa dos avós virou um adolescente que preferia os amigos. Clarinha sentia falta da bagunça, dos desenhos na televisão, do "vó, faz bolo?". O telefone não tocava mais com a voz dele.

— Ele não vem mais — ela disse para Beto.

— Ele vem. Só que menos.

— Menos é quase nunca.

Clarinha passou uma temporada de luto. O neto não precisava mais dela como antes. As férias na casa dos avós já não eram interessantes. A adolescência tinha roubado o menino que ela amava.

— Você precisa deixar ele ir — disse Beto.

— Deixar ir?

— Ele não é mais criança, Clarinha. Ele está crescendo. A gente precisa dar espaço.

— Eu sei. Mas dói.

— Dói porque você ama. A gente não sente falta do que não importa.

Clarinha decidiu se adaptar. Em vez de esperar Miguel ligar, ela ligava para ele. Em vez de convidar para passar o fim de semana, convidava para um almoço rápido. A relação mudou. Não era mais avó e neto pequeno. Era avó e neto adolescente. Diferente, mas ainda amor.

— Vó, posso trazer um amigo no almoço de domingo? — Miguel perguntou, num sábado.

— Pode, claro.

— Ele adora bolo de fubá.

— Então vou fazer.

Clarinha entendeu que o amor não acaba quando as crianças crescem. Ele só muda de forma. E a nova forma, com conversas mais profundas e menos brincadeiras, também era bonita.