Quando Beto se aposentou, Clarinha ficou feliz. Mas depois de três semanas com ele em casa 24 horas por dia, a paciência começou a acabar. Beto reorganizava a cozinha, dava palpite na comida, perguntava o tempo todo "o que vamos fazer hoje?".
— Você precisa de um hobby — ela disse.
— Tenho a marcenaria.
— Passa mais tempo lá.
— Você está me expulsando de casa?
— Estou te salvando do divórcio.
Beto riu, mas entendeu. Passar o dia inteiro juntos era novo para os dois. Durante quarenta anos, eles se viam à noite e nos fins de semana. Agora, era 24/7.
— A gente precisa de limites — propôs Clarinha.
— Que limites?
— Horários. Espaços. Coisas separadas.
Eles definiram: de manhã, cada um fazia o que queria. Beto ia para a marcenaria. Clarinha, para a cerâmica. Almoçavam juntos. À tarde, podiam estar juntos ou não. O segredo era não sufocar.
— Não é que eu não goste de você — Clarinha explicou. — É que eu gosto de você com saudade.
— Então a gente precisa ter saudade.
— Durante o dia, pelo menos.
Funcionou. Beto aprendera que amor não é estar junto o tempo todo. É estar junto quando importa. E os momentos em que estavam juntos — o almoço, o café da tarde, a novela — valiam mais porque não eram o tempo inteiro.
— Você é a melhor esposa do mundo — ele disse, num almoço.
— Eu sei.
— E a mais mandona.
— Também.
— Mas é a melhor.