Clarinha percebeu que passava os dias esperando os filhos ligarem. O telefone era o centro da vida dela. Se Pedro não ligava, ela ficava ansiosa. Se demorava a responder, imaginava o pior.
— Você precisa de uma vida — disse Beto.
— Tenho vida.
— Tem a vida dos outros. Precisava da sua.
Clarinha se inscreveu num curso de cerâmica no centro cultural. Não sabia nada sobre argila, mas queria aprender algo novo. No primeiro dia, sentou num canto, encolhida. As outras alunas eram mulheres da idade dela, algumas mais velhas.
— É sua primeira vez? — perguntou uma senhora de cabelos brancos.
— É. Estou perdida.
— Perdida é o estado normal aqui. A gente aprende errando.
Clarinha colocou as mãos no barro e sentiu uma sensação nova. A argila era fria, macia, moldável. Ela fez um vaso torto. Depois outro. Depois uma tigela que parecia mais um cogumelo.
— Isso é horrível — riu.
— Horrível é o primeiro passo para bom.
Ela continuou. As aulas viraram rotina. Ela fazia peças feias que aos poucos ficavam menos feias. Fez amigas. Tomava café depois da aula. Ria. Descobriu que o mundo não acabava quando Pedro não ligava.
— Você está diferente — Beto observou.
— Estou. Aprendi que não preciso esperar ninguém para viver.
— E o que você faz com essa descoberta?
— Vivo.
Ela colocou o primeiro vaso que considerou bonito na estante da sala. Era torto ainda, mas era dela. Como a vida que ela estava construindo: imperfeita, mas verdadeira.