Pedro conseguiu um emprego em outra cidade. A notícia foi motivo de orgulho e tristeza ao mesmo tempo. Beto ficou feliz pelo filho, mas sentiu o peito apertar. Quinhentos quilômetros de distância. Não era o fim do mundo, mas parecia.
— A gente vai sentir falta — disse Clarinha, no dia da mudança.
— Muita.
— Mas ele precisa voar.
— Eu sei. Mas o ninho fica vazio de novo.
Beto odiava tecnologia. Nunca aprendeu a usar redes sociais, não entendia aplicativos, mal sabia mexer no celular. Mas pela primeira vez, ele se interessou. Clarinha ensinou a usar o WhatsApp.
— É aqui que a gente vê ele?
— É. Aperta esse botão verde.
A primeira videochamada foi estranha. Beto segurava o celular de um jeito que só mostrava o queixo. Pedro ria do outro lado.
— Pai, vira a câmera.
— Como vira?
— Ali. No canto.
A imagem ajustou. Beto viu o filho na tela, na casa nova, na cidade nova. O coração apertou, mas também se encheu.
— Você está bem? — perguntou Beto.
— Estou, pai. A cidade é boa. O trabalho é bom.
— Come direito?
— Como.
— Dorme bem?
— Durmo.
— Toma cuidado.
— Tomo.
As videochamadas viraram o ponto alto da semana. Domingo às dez da manhã, Beto ligava para Pedro. Falavam de trabalho, de Miguel, de amenidades. Não era a mesma coisa que ter o filho perto. Mas era melhor que silêncio.
— A tecnologia não é tão ruim — Beto admitiu, depois de uma chamada.
— Tecnologia aproxima — Clarinha disse.
— Aproxima. Mas eu ainda prefiro abraço.
— Um dia a gente abraça de novo.
— Até lá, tem videochamada.