Clarinha sempre achou que renovação de votos era coisa de rico ou de quem estava em crise. Mas depois de quarenta anos de casamento, ela sentiu vontade de celebrar. Não porque o casamento estava ruim. Porque estava bom.
— Vamos renovar os votos? — perguntou a Beto.
— Renovar? A gente já é casado.
— Eu sei. Mas a gente era jovem quando casou. Não sabia o que estava fazendo. Agora a gente sabe.
Beto pensou. Lembrou do casamento simples na igreja do bairro, com poucos convidados, vestido alugado, buffet de pastel e refrigerante. Foi bonito, mas foi apressado. Ela estava grávida de Pedro, e a cerimônia foi mais para "resolver a situação" do que para celebrar o amor.
— Dessa vez eu quero vestido de verdade — disse Clarinha.
— Dessa vez eu quero aliança que não enferruja.
— Dessa vez eu quero que o Miguel seja o pajem.
— Dessa vez eu quero você.
A cerimônia foi no quintal de casa. Pouca gente: Pedro, Marina, Miguel, Carlos, Luísa, Seu Antônio. Um juiz de paz amigo da família. Clarinha usou um vestido azul claro, não branco. Beto usou uma camisa nova que ela escolheu.
— Eu, Beto, aceito você, Clarinha, mais uma vez.
— Eu, Clarinha, aceito você, Beto, de novo e sempre.
Dessa vez não teve "até que a morte nos separe". Teve "enquanto a gente viver". E a diferença era sutil, mas importante. A primeira vez foi uma promessa. A segunda foi uma escolha. E escolher o outro de novo, depois de tudo, era mais bonito que qualquer primeira vez.