Como redescobrir o parceiro depois de tantos anos?

Clarinha

Clarinha estava no quarto arrumando a mala para a viagem quando Beto apareceu com duas passagens e um sorriso bobo. "Surpresa", disse. Ela olhou os destinos: Paris. Sempre quis conhecer Paris, mas nunca tinham tido dinheiro ou tempo.

— Como a gente vai pagar? — perguntou.

— Já paguei.

— Beto…

— A gente trabalhou a vida inteira. Merece um presente.

Em Paris, Clarinha se sentiu uma moça de novo. Andavam de mãos dadas pelas ruas, comiam croissant no café da manhã, tiravam fotos como turistas bobos. Beto segurava a câmera e pedia para ela posar.

— Você está linda — disse, numa ponte sobre o Sena.

— Estou velha.

— Velha não. Madura. E linda.

Clarinha sentiu o coração acelerar. Era a mesma sensação do primeiro encontro, quarenta anos atrás. O mesmo frio na barriga. O mesmo homem, mas diferente. Mais calmo. Mais presente.

— A gente se perdeu no caminho, não perdeu? — ela perguntou, numa noite no hotel.

— Perdeu. Mas a gente se achou de novo.

— Quando?

— Quando a gente parou de correr e começou a olhar um para o outro.

Ela encostou a cabeça no ombro dele. O namoro tinha recomeçado. Aos 60, eles estavam se redescobrindo. E era tão bom quanto — melhor que — a primeira vez.