Beto sempre sonhou em viajar pelo mundo. Mas o trabalho, a casa, os filhos, as contas — tudo isso adiou o sonho por décadas. Quando se aposentou, olhou para o mapa-múndi que comprou anos atrás e ainda estava enrolado no canto do escritório.
— Vamos viajar? — perguntou para Clarinha.
— Viajar para onde?
— Para todo lugar que a gente não foi.
Clarinha riu. Achou que era brincadeira. Mas Beto levou a sério. Abriu o mapa na parede da sala e começou a marcar os lugares que queria conhecer. Uma viagem grande, de verdade.
— A gente não tem dinheiro para isso — ela disse.
— A gente tem o que juntou. E se a gente não gastar agora, vai gastar quando?
— Quando?
— Exatamente. Nunca.
Eles planejaram durante meses. Pesquisaram destinos econômicos, passagens em promoção, hospedagem simples. Descobriram que viajar não era caro — o caro era viajar com o padrão que eles achavam que precisavam.
— Que tal começar pela América do Sul? — propôs Clarinha.
— América do Sul?
— É perto, barato, e a gente nunca viu nada.
Beto concordou. Compraram passagens para Buenos Aires, Santiago, Lima e Cartagena. Três semanas, quatro países, mochila nas costas.
— Vamos de mochila? Aos 60 anos?
— Aos 60 anos. E daí?
A viagem foi transformadora. Beto viu paisagens que só conhecia em fotos. Comeu comidas estranhas. Perdeu-se em cidades desconhecidas. Descobriu que o mundo era maior e mais bonito do que ele imaginava.
— Por que a gente não fez isso antes? — perguntou, num pôr do sol em Cartagena.
— Porque a gente estava ocupado vivendo a vida dos outros — respondeu Clarinha.
— Agora a gente vive a nossa.
— Agora a gente vive a nossa.