Beto sempre foi de dormir seis horas por noite e acabar o dia. Mas depois dos 55, seis horas não bastavam mais. Ele acordava cansado, passava o dia bocejando, e a única coisa que queria era deitar.
— Você dorme mal? — perguntou o médico.
— Durmo. Seis horas.
— Seis horas não é suficiente para sua idade.
— Desde quando idade muda o sono?
— Desde sempre. O padrão de sono muda com o envelhecimento. Você pode precisar de oito horas, não seis. E cochilos durante o dia são normais.
Beto resistiu. Achava que dormir muito era perda de tempo. Mas o cansaço acumulado venceu. Ele passou a dormir oito horas. E, depois do almoço, um cochilo de 20 minutos.
— Você está dormindo mais que um gato — brincou Clarinha.
— O médico mandou.
— E você obedeceu?
— Pela primeira vez, sim.
A diferença foi notável. Beto acordava disposto, tinha energia para a marcenaria, não reclamava de cansaço no meio da tarde. O cochilo não era preguiça — era recarga.
— Sabe o que aprendi? — disse para Clarinha.
— O quê?
— Que descansar não é derrota. É estratégia. O corpo não é mais o mesmo. Se eu não respeitar, ele para.
— Então cochila.
— Cochilo. E não tenho vergonha.
No domingo, Beto cochilou no sofá com Miguel dormindo no peito. Os dois roncando baixinho. Clarinha tirou uma foto. Descanso, para ele, tinha virado sinônimo de amor.