Clarinha sentia ondas de calor há meses. Acordava no meio da noite suada, o coração disparado. O humor oscilava sem aviso. Num minuto estava bem, no outro queria chorar sem motivo. Ela não sabia como tocar no assunto com Beto. Falar sobre menopausa parecia falar sobre o fim de alguma coisa.
— Você está estranha ultimamente — Beto comentou numa manhã, depois de ela ter explodido porque ele deixou a toalha molhada em cima da cama.
— Não estou estranha.
— Está sim. Parece que qualquer coisa te tira do sério.
Clarinha sentou na beira da cama. A onda de calor veio, e ela abanou o rosto com a mão.
— É menopausa — soltou, de uma vez.
Beto parou. Sentou ao lado dela.
— Menopausa?
— Isso. Começou faz uns meses. As ondas de calor, o sono ruim, o mau humor. Não é você. Não sou eu. É meu corpo mudando.
Beto ficou em silêncio por um momento. Depois colocou a mão sobre a dela.
— O que você precisa?
— Não sei. Acho que só precisava falar sobre isso sem medo.
— Pode falar. Eu estou aqui.
Ela chorou. Não de tristeza, mas de alívio. Beto segurou a mão dela e não soltou.
Na semana seguinte, Clarinha foi ao ginecologista e começou a reposição hormonal. Beto leu sobre o assunto, pesquisou sintomas, perguntou como podia ajudar. Ela percebeu que a menopausa não era o fim da juventude — era só uma nova fase. E que enfrentar juntos era mais importante do que enfrentar sozinha.