Clarinha sentiu a solidão chegar devagar. Primeiro, os filhos saíram de casa. Depois, o trabalho diminuiu. As amigas se mudaram ou faleceram. Os dias ficaram mais longos e o telefone tocou menos. Ela passava horas no sofá, olhando a televisão ligada sem ver.
— Você está diferente — Beto observou.
— Estou bem.
— Não está. Você antes pintava, fazia coisas. Agora só fica aí.
— Não tenho ânimo.
— Ânimo não cai do céu. Ânimo se busca.
Clarinha lembrou que amava pintar quando jovem. Tinha um cavalete guardado no fundo do armário junto com tintas secas e pincéis endurecidos. Comprou material novo. Abriu uma tela em branco. Olhou para ela por uma hora sem saber o que fazer.
— Pinta o que você sente — sugeriu Beto.
Ela pintou uma paisagem abstrata. Cores que não combinavam. Formas soltas. Não era bonito, mas era dela.
Na semana seguinte, descobriu que o centro cultural do bairro tinha aulas de pintura para idosos. Inscreveu-se. Conheceu pessoas da mesma idade, com as mesmas histórias. O ateliê virou refúgio.
— Você está mais animada — Beto notou.
— Estou. Descobri que solidão não se resolve ficando em casa. Resolve-se saindo.
— E pintando.
— E pintando.
Clarinha expôs um quadro na feira cultural do bairro. Não vendeu nenhum. Mas uma senhora desconhecida parou na frente da tela e disse: "Isso me lembra minha infância." Clarinha entendeu que a arte não era sobre talento. Era sobre conexão. E conexão afasta a solidão.