A conversa mais difícil que Beto teve com o pai não foi sobre dinheiro, nem sobre herança. Foi sobre a carteira de motorista. Seu Antônio, aos 83 anos, insistia em dirigir. Mas a visão já não era a mesma, os reflexos tinham diminuído e Beto vivia com medo de receber uma ligação da polícia.
— Pai, o senhor precisa parar de dirigir.
— Preciso nada. Dirijo há 60 anos, nunca bati.
— Nunca bateu porque Deus gosta do senhor. Mas a sorte uma hora acaba.
— Não vou entregar a CNH.
— Não estou pedindo para entregar. Estou pedindo para pensar nos outros. No que pode acontecer se o senhor não enxergar uma placa. Se o senhor não frear a tempo.
Seu Antônio ficou calado. Beto sabia que o carro representava independência. Sem ele, o pai teria que pedir carona, depender dos filhos, perder a liberdade.
— Eu busco o senhor onde precisar — Beto ofereceu. — A qualquer hora.
— Não quero ser peso.
— O senhor nunca será peso. É meu pai.
Uma semana depois, Seu Antônio entregou a CNH no departamento de trânsito. Não renovou. Chegou em casa andando — tinha ido a pé ao mercado pela primeira vez em anos.
— Não foi tão ruim — disse para Beto.
— Andar faz bem.
— Faz. E não precisei bater o carro para descobrir.
Beto abraçou o pai. A CNH era só um pedaço de plástico. A vida do pai e a segurança dos outros valiam mais. E Seu Antônio descobriu que andar a pé tinha suas vantagens — ele viajava mais devagar, mas viajava melhor.