Como lidar com as limitações físicas do corpo envelhecido?

Beto

Beto morava no quarto andar, sem elevador. Durante anos, subiu os lances de escada sem pensar. Mas um dia, chegou no terceiro andar e precisou parar para respirar. O coração batia forte, as pernas pesavam. Ele encostou na parede e esperou.

— Isso é novo — murmurou.

Em casa, não comentou com Clarinha. Mas no dia seguinte, a mesma coisa. No terceiro, também. Subir escada virou um evento. Ele começava a suar, o fôlego faltava, as pernas ardiam.

— Você está ofegante — observou Clarinha.

— Escada.

— A escada é a mesma de sempre.

— Eu não sou o mesmo de sempre.

Beto foi ao médico. O diagnóstico foi simples: sedentarismo combinado com idade. O corpo não aguentava mais o que aguentava aos 30.

— O senhor precisa fazer exercício — disse o médico. — Não opcional. Obrigatório.

Beto começou a caminhar. Primeiro 10 minutos. Depois 20. Depois 30. Matriculou-se na academia do bairro — a mesma onde jovens malhavam e ele se sentia deslocado. Mas foi.

— Você está indo na academia? — Pedro perguntou, surpreso.

— Estou.

— Desde quando?

— Desde que percebi que não quero depender de ninguém para subir uma escada.

Três meses depois, Beto subia os quatro andares sem parar. Ainda ofegava um pouco, mas não precisava mais parar. Era uma vitória pequena, mas para ele era gigante.

— A velhice não é o fim — disse para Clarinha, chegando em casa depois da caminhada. — É só uma fase que exige mais cuidado.

— Mais cuidado e mais escada.

— E mais escada.