Depois do diagnóstico de pressão alta, Beto virou outro homem. Cada dor de cabeça era um AVC. Cada tontura, um infarto. Ele passou a pesquisar sintomas no Google e saía convencido de que tinha doenças raras. Clarinha começou a se preocupar — não com a saúde dele, mas com a ansiedade.
— Você está exagerando — ela disse.
— Estou me cuidando.
— Cuidar não é ter medo. É ter atenção.
Beto não ouviu. Marcou exames atrás de exames. Fez tomografia, ressonância, ecocardiograma, holter, tudo que o médico pedia. E pedia coisas que o médico não tinha pedido — ele mesmo solicitava.
— Beto, você está bem — disse o cardiologista, depois do quarto exame no mesmo mês. — Sua pressão está controlada. Seus exames estão ótimos. Você precisa é tratar a ansiedade.
— Ansiedade? Eu não tenho ansiedade.
— Tem sim. Você está com medo de morrer. E esse medo está te matando aos poucos.
Beto ficou em silêncio. O médico estava certo. Ele passou a vida inteira sem pensar na morte. Agora, depois dos 50, ela parecia espreitar em cada esquina.
Procurou um psicólogo. Começou a terapia. Aprendeu que não era a morte que ele temia — era não ter vivido o suficiente. Aprendeu que cuidar da saúde não é pensar em doença o tempo todo. É fazer o básico: comer bem, dormir bem, tomar remédio, fazer exercício. E viver.
— Você está mais calmo — observou Clarinha.
— Estou. Descobri que a morte não vem porque a gente pensa nela. Ela vem quando tem que vir. Enquanto isso, a gente vive.