Clarinha recebeu a notícia num sábado de manhã. Dona Marta, a amiga de tantos anos, tinha partido durante o sono. O coração parou. Simples assim. Clarinha sentou na cama, o telefone na mão, e não conseguiu chorar. O choque era maior que a dor.
— Ela se foi — disse para Beto, a voz vazia.
— Como?
— Dormiu e não acordou.
Beto sentou ao lado dela. Ficaram em silêncio. O que dizer? Trinta anos de amizade não cabem em palavras.
No velório, Clarinha viu Dona Marta no caixão e a ficha caiu. As lágrimas vieram. Ela lembrou das conversas de café, das risadas na cozinha, dos conselhos nos momentos difíceis. Dona Marta foi a primeira a saber que Clarinha estava grávida. Foi a primeira a visitar quando Pedro nasceu.
— Ela não está mais aqui — Clarinha disse para Beto, no cemitério.
— Está sim. Em você. Em cada história que vocês viveram.
— Dói tanto.
— Dói porque você amou. A dor é o preço do amor.
Clarinha passou semanas de luto. No começo, não queria sair de casa. Depois, começou a fazer coisas que Dona Marta gostava: jardinar, cozinhar doces, ouvir música antiga.
— Ela está viva em mim — Clarinha percebeu, um dia, regando as plantas. — Enquanto eu lembrar, ela vive.
Beto abraçou ela por trás.
— E você vai lembrar sempre.
— Sempre.