Seu Antônio, pai de Beto, estava com 82 anos. Sempre foi um homem forte, ativo, que resolvia tudo sozinho. Mas nos últimos meses, Beto notou mudanças. O pai esquecia compromissos, repetia as mesmas histórias, deixava o fogão aceso. O homem que Beto admirava estava ficando frágil.
— Pai, o senhor precisa de ajuda em casa — Beto disse, numa visita.
— Não preciso de ajuda. Dou conta sozinho.
— O senhor esqueceu o remédio três vezes essa semana.
— Esqueci porque tenho mais o que fazer.
Beto sabia que era orgulho. O mesmo orgulho que ele tinha. O pai não queria admitir que estava envelhecendo. Mas Beto não podia ignorar os sinais.
Conversou com Clarinha, com Pedro, com o médico do pai. A solução não era simples. Seu Antônio não aceitava cuidador, não queria sair de casa, não queria depender de ninguém.
— A gente precisa respeitar a autonomia dele — disse o médico. — Mas também precisa garantir a segurança.
Beto chegou a um acordo com o pai: uma diarista iria três vezes por semana "para ajudar com a limpeza". O pai aceitou porque não parecia ajuda — parecia serviço. Beto também instalou câmeras na sala e na cozinha, escondidas em objetos comuns.
— Isso é invasão de privacidade? — perguntou Clarinha.
— Isso é amor disfarçado de cuidado.
Uma semana depois, Beto viu pela câmera o pai acender o fogão e esquecer a panela no fogo. Chegou em cinco minutos. Apagou o fogo. Não disse nada. Mas na semana seguinte, contratou a cuidadora. Seu Antônio reclamou, mas aceitou. Sabia, no fundo, que precisava.